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  • Foto do escritorlucas protti

Não é sobre muletas, mas sim sobre o caminhar




Quando ela me procurou, iniciamos um acompanhamento.

Depois de alguns meses, ela começou a faltar às sessões, apesar de sempre dizer que a terapia a estava ajudando muito.


Quando abordei o assunto das faltas, ela disse: "Acho que tenho medo de ficar dependente da terapia, como se ela fosse se tornar uma muleta".


Sem pensar muito, respondi: "Logo você, uma enfermeira, incomodada por ter que usar muletas?" Ela riu e falou: "touché". Contudo, com o tempo acabou se afastando de forma definitiva.


Porém, quase um ano depois, ela retornou. Dessa vez, fazendo questão de manter o tratamento. Continuamos por mais um ano.


No dia 31 de dezembro, recebi uma mensagem gratificante: "Obrigada por todo silêncio e fala de construção nas sessões. Aprendi que terapia não é muleta, é sobre o caminhar. Feliz ano novo!"


O medo da "dependência"


Apesar da singularidade de cada caso, esse é um receio de muitas pessoas. Ficam com medo de desenvolverem uma dependência do psicólogo e de a terapia se transformar em uma muleta.


No entanto, o que frequentemente não percebem é que ao longo de suas vidas já utilizam diversas outras "muletas", que são mais socialmente aceitas.


Essas podem incluir o abuso de substâncias como álcool ou tabaco, comportamentos de evitação, ou até mesmo o uso excessivo das redes sociais como forma de fugir dos problemas. Relacionamentos "tóxicos" também servem como muletas.


Portanto, reconhecer a necessidade de apoio psicológico não é sinal de fraqueza, mas sim de coragem e autoconhecimento.


Vale ressaltar que, nem mesmo as próprias "muletas" são sinais de fraqueza, mas sim estratégias de enfrentamento que desenvolvemos para lidar com as adversidades da vida.

No final, todos procuram ser mais autônomos, cada um à sua maneira. Que possamos sempre encarar essa jornada com abertura e aceitação, apesar de todas as dificuldades.


E que sejamos sempre cuidadosos. Como nos diz Clarice Lispector: "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro".


Lucas C. Protti

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