top of page
  • Foto do escritorlucas protti

O divã na psicanálise




O divã, inventado por Freud, inicialmente servia para evitar o cansaço do contato visual com os pacientes após longos dias de trabalho. Com o tempo, outros psicanalistas reconheceram o potencial do divã como dispositivo importante ao processo psicoterapêutic, gerando debates sobre o momento ideal para o paciente deitar-se.


Embora não essencial para que haja uma psicanálise, o divã se configura como um instrumento valioso por diversos motivos. Deitado, o paciente fala em um encontro com a própria palavra, livre da pressão do olhar ou da imagem do outro. Essa fala se dirige tanto ao Outro ("encarnado" na pessoa do psicanalista) quanto a si mesmo, muitas vezes permitindo uma diferenciada e inovadora do que se diz.


É importante ressaltar que o divã não promove a fala solitária, como se o paciente estivesse falando para as paredes. O analista está presente, mesmo quando está em silêncio. Esse silêncio, porém, não é desinteressado ou inerte, mas sim ativo, pronto para intervir no momento oportuno. A fala do analista deve ser dosada para não interromper o fluxo de pensamentos do paciente, uma das artes da profissão.


Além disso, o divã adquire um caráter único e singular, transformando-se em um verdadeiro dispositivo corporal. A pressão sanguínea, por exemplo, se modifica quando deitamos, criando um estado propício para as chamadas "pillow talks" ou "conversas de travesseiro", caracterizadas por sua profundidade e significado. É nesse estado corporal horizonantal que dormirmos, sonhamos e acessamos o mundo onírico, regido por outras lógicas.


Ao deitar no divã, mesmo que falando sobre "trivialidades", encontramos o fio de uma fala diferente, que toca em pontos nevrálgicos, naquilo que é impossível de nomear ou descrever no cotidiano. De eventos que se passaram e não tivemos a oportunidade de nos expressar. Falar, com todas as suas dificuldades, se torna possível com o peito mais aberto para o mundo, sem a timidez ou censura da presença alheia. Opera-se um encontro com o inconsciente, que é atemporal.


Desse modo, surge a pergunta: seria romântico imaginar que, ao deitar no divã, nos aproximamos de uma fala mais próxima do coração, visto que cabeça e órgão dividem o mesmo plano? Acredito que não.


Contudo, o divã não nos aproxima do coração no sentido literal, mas sim nos coloca em um estado propício para a exploração de nossas emoções e pensamentos mais profundos, aqueles que muitas vezes estão escondidos sob camadas de racionalidade e defesa. É nesse espaço que a psicanálise se desenrola, permitindo que o paciente se explore e se descubra de forma mais autêntica.


Faça terapia.



3 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page