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Por quê acredito nos psicodélicos: um relato pessoal

Atualizado: 22 de mai.




Enquanto psicólogo, estudo o tema dos psicodélicos e da saúde mental desde a minha graduação. Assim como este pequeno relato de uma experiência pessoal, eu poderia fazer outros e trazer inúmeras pessoas - psicólogos ou não, que têm mostrado o impacto positivo que os psicodélicos tiveram em suas vidas.


Entretanto, não se trata de provar nada para ninguém, mas sim de contar histórias. Histórias que, como nos diz Krenak, possam “adiar o fim do mundo”, que mostrem outras possibilidades de vidas, de tratamentos e concepções a respeito do sofrimento e de como lidar com ele.


O fato é que, foi apenas a partir de experiência com a psilocibina que percebi a dor que a morte de um amigo, há três anos atrás, por câncer, havia me afetado de tal forma que eu havia, inconscientemente, me isolado de algumas relações. Uma "defesa" havia sido criada nas amizades.


Não foi fácil lidar com a morte de um semelhante de forma tão inesperada, repentina e veloz. Não houve tempo e nem coragem para despedidas, ainda mais em um contexto pandêmico, todo contato e proximidade se tornava mais difícil ainda, aproximando o inevitável da partida.


Desta sessão, lembro-me da sensação, de estar deitado, no escuro e um pensamento sobre a minha relação com um determinado amigo atravessar-me as ideias. De repente, como um link inexplicável, uma espécie de associação livre, lembrei-me desse outro amigo, que já havia partido, e chorei um choro convulsivo, que eu jamais imaginei que havia em mim.


Um choro que misturava diferentes sensações, liberando uma carga energética retesada, cansada de segurar o choro. Depois vieram palavras, as elaborações, o alívio, e certo “entendimento. Entretanto, aquele sentimento estava no corpo e era pré-verbal. Nem tudo é da ordem do simbólico. Os psicodélicos nos colocam de frente com isso.


Lembro-me também de pensar que, se eu havia acabado de acessar a dor de um amigo, imagina os soldados das guerras que estão tomando psicodélicos: quantos amigos que eles perderam no campo de batalha eles terão que chorar?


"Será que tive medo de perder outros amigos depois da morte dele, e por isso me isolei de alguns deles?" - foi uma das questões que posteriormente me fiz.


Foi uma questão inclusive que se tornou uma questão de análise, trabalhada na minha própria terapia. Entretanto, o mais interessante é que, sem a sessão com a psilocibina, talvez eu ficasse anos falando em terapia e nunca falasse sobre esse assunto.


Havia sido algo da ordem do “traumático” e que estava tendo seus efeitos sobre mim, sem que eu houvesse me dado conta. Entretanto, que bom que eu pude levar tais acontecimentos para a minha própria terapia. É isso que se denomina popularmente de “integração psicodélica”.


Integrar os efeitos dessas vivências, as situações que surgem, que demandam certa elaboração, mas que, entretanto, não precisam ser necessariamente pela terapia, pelo verbal. Esse é um dos caminhos para algumas pessoas, visto que esses compostos fazem alianças há milênios com povos que sequer precisam de “terapias” para integrar esses eventos.


O sofrimento humano é grande, complexo. A aliança que formaremos com alguns psicodélicos talvez nos ajude a atravessá-lo. Apesar de todas as problemáticas que envolvem o seu uso, o seu retorno ao campo da psiquiatria/psicologia e etc., de forma geral, o ressurgimento do debate sobre essas questões e o aumento da sua circulação, em minha opinião, é vista como positiva. Depende de quais alianças fizermos com ele, de os respeitarmos, de termos um compromisso.


Como nos diz a psicanalista Vera Iaconelli, “claro está que sua legalização também cairá no moedor de carne do capitalismo. Mas podemos apostar também em um uso que se preste a iluminar o exato ponto no qual perdemos a fé no vivente e optamos por sua dominação e destruição.”


Acredito nos psicodélicos, principalmente aqueles que possuem tradições de uso. Acredito nas alianças com eles porque cada vez mais cresce o número de pessoas que compartilham os impactos positivos em suas vidas.


Acredito por quê, como definiu muito bem Iaconelli, “para além dessa importante função, a própria experiência com essas substâncias, quando bem administrada e corretamente assistida, nos ajuda a refletir sobre aquilo que nos aparta tão brutalmente de nós mesmos e nos leva à derrocada civilizatória”.

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