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46 itens encontrados para ""

  • Angústia: o afeto que não engana

    Na vida, as mudanças significativas frequentemente surgem acompanhadas de angústia. Este sentimento, quando bem manejado, não apenas nos ajuda a enfrentar desafios, mas também nos motiva a superá-los, mesmo que o progresso seja lento e repleto de obstáculos. Na terapia, a angústia desempenha um papel crucial ao destacar áreas de desconforto que precisam ser trabalhadas. Além disso, ela nos impulsiona a explorar questões profundas sobre quem somos e o que valorizamos na vida. Sob a ótica de Lacan, renomado psicanalista, a angústia é frequentemente descrita como "o afeto que não engana". Isso sugere que, ao contrário de outras emoções que podem ser mascaradas ou mal interpretadas, a angústia revela uma verdade mais profunda sobre o sujeito. Lacan argumenta que a angústia nem sempre está ligada a uma causa específica ou objeto identificável, mas muitas vezes à experiência de confrontar o vazio e a falta inerentes à condição humana. Essa falta fundamental, referida por Lacan como "falta no Outro", é uma sensação de ausência ou inadequação que surge quando confrontamos a incompletude de nossos desejos e identidades. Portanto, a angústia pode ser vista como um sinal de que estamos confrontando essa falta, consciente ou inconscientemente, e lutando para encontrar uma forma de lidar com ela, buscando soluções para os desafios da vida. Cada pequena mudança que fazemos, por mais demorada que seja, é uma vitória. Ao olharmos para trás, percebemos o quanto crescemos ao longo desse caminho. Dessa forma, é importante valorizar o presente - e por que não a angústia? - como a chave para alcançar essas transformações. Demos respeitá-la, ouvi-la, permitir que se expresse e adquira forma, para que se torne um impulso vitalício para nosso caminhar. Assim como a diferença entre o remédio e o veneno está na dose, a angústia, em excesso, paralisa; porém, quando devidamente tratada, ela nos movimenta. Faça terapia.

  • A força curativa da arte

    Muitos artistas testemunham como a produção artística não está dissociada da angústia, da tristeza e do mal-estar que permeiam a experiência humana. Não é incomum que o artista seja tomado por uma inquietação profunda, uma sensação de desconforto existencial, e encontre na expressão artística um refúgio, uma forma de dar sentido ao caos interno, de encontrar beleza na dor e de transcender as limitações da realidade. Portanto, a arte não é apenas um meio de escapismo ou entretenimento, mas sim um canal poderoso para explorar os recantos mais "sombrios" e "luminosos" da psique humana, para dar voz às emoções reprimidas e para criar uma ponte entre o consciente e o inconsciente. É por isso que a arte ocupa um lugar central na teoria de Freud, Lacan e outros psicanalistas, que reconhecem seu papel fundamental na busca por significado e na elaboração dos conflitos internos que afligem o ser humano. Para a psicanálise, o único mecanismo de defesa inconsciente verdadeiramente eficaz é a sublimação: através dela, canalizamos as energias pulsionais para formas socialmente aceitáveis de expressão, transformando o impulso primitivo em obras de arte, descobertas científicas e outras realizações criativas. No entanto, é importante reconhecer que a sublimação não é um processo totalizador. Enquanto ela oferece um meio valioso de lidar com os conflitos internos e as demandas pulsionais, há aspectos da experiência humana que resistem à transformação. Nem todas as emoções, impulsos ou traumas podem ser facilmente canalizados para formas socialmente aceitáveis de expressão. A complexidade da experiência humana reside justamente na coexistência de diferentes impulsos, desejos e experiências que não podem ser facilmente contidos ou transformados pela sublimação. Algumas emoções podem ser tão avassaladoras que desafiam qualquer tentativa de serem sublimadas, enquanto outras podem ser tão profundamente arraigadas no inconsciente que escapam à nossa consciência. Contudo, diante da arte, Lacan observa com perspicácia: "Toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno de um vazio". Essa observação sugere que o processo criativo é, em última análise, um mergulho no desconhecido, uma tentativa de preencher o vazio existencial com significado, de encontrar ordem no caos, de dar forma ao informe. Assim, a arte não apenas reflete a condição humana, mas também a desafia, oferecendo novas perspectivas, novas maneiras de ver o mundo e de nos vermos a nós mesmos. A arte, nascida da inquietação e do mal-estar, é um convite à reflexão sobre a complexa experiência humana, oferecendo um refúgio para a angústia e um canal para a sublimação das emoções, construindo pontes entre o individual e o universal, o finito e o infinito. Dessa forma, fica a pergunta: assim como os artistas, não será em torno de um (ou vários? "vazios" que todos nós construímos nossas vidas? E não será na arte que encontramos uma resposta que não seja totalizante?

  • O divã na psicanálise

    O divã, inventado por Freud, inicialmente servia para evitar o cansaço do contato visual com os pacientes após longos dias de trabalho. Com o tempo, outros psicanalistas reconheceram o potencial do divã como dispositivo importante ao processo psicoterapêutic, gerando debates sobre o momento ideal para o paciente deitar-se. Embora não essencial para que haja uma psicanálise, o divã se configura como um instrumento valioso por diversos motivos. Deitado, o paciente fala em um encontro com a própria palavra, livre da pressão do olhar ou da imagem do outro. Essa fala se dirige tanto ao Outro ("encarnado" na pessoa do psicanalista) quanto a si mesmo, muitas vezes permitindo uma diferenciada e inovadora do que se diz. É importante ressaltar que o divã não promove a fala solitária, como se o paciente estivesse falando para as paredes. O analista está presente, mesmo quando está em silêncio. Esse silêncio, porém, não é desinteressado ou inerte, mas sim ativo, pronto para intervir no momento oportuno. A fala do analista deve ser dosada para não interromper o fluxo de pensamentos do paciente, uma das artes da profissão. Além disso, o divã adquire um caráter único e singular, transformando-se em um verdadeiro dispositivo corporal. A pressão sanguínea, por exemplo, se modifica quando deitamos, criando um estado propício para as chamadas "pillow talks" ou "conversas de travesseiro", caracterizadas por sua profundidade e significado. É nesse estado corporal horizonantal que dormirmos, sonhamos e acessamos o mundo onírico, regido por outras lógicas. Ao deitar no divã, mesmo que falando sobre "trivialidades", encontramos o fio de uma fala diferente, que toca em pontos nevrálgicos, naquilo que é impossível de nomear ou descrever no cotidiano. De eventos que se passaram e não tivemos a oportunidade de nos expressar. Falar, com todas as suas dificuldades, se torna possível com o peito mais aberto para o mundo, sem a timidez ou censura da presença alheia. Opera-se um encontro com o inconsciente, que é atemporal. Desse modo, surge a pergunta: seria romântico imaginar que, ao deitar no divã, nos aproximamos de uma fala mais próxima do coração, visto que cabeça e órgão dividem o mesmo plano? Acredito que não. Contudo, o divã não nos aproxima do coração no sentido literal, mas sim nos coloca em um estado propício para a exploração de nossas emoções e pensamentos mais profundos, aqueles que muitas vezes estão escondidos sob camadas de racionalidade e defesa. É nesse espaço que a psicanálise se desenrola, permitindo que o paciente se explore e se descubra de forma mais autêntica. Faça terapia.

  • A felicidade é um problema "individual"

    A vida é uma jornada repleta de encontros e experiências, onde pessoas e eventos assumem papéis significativos como guias silenciosos ao longo do caminho. A cada ano que passa, encontramos novos rostos, lugares, silêncios, paisagens, livros, músicas, poemas, aromas, sabores, sonhos e conversas. Há eventos que alteram completamente a direção da nossa embarcação. Em nossa jornada, muitas vezes buscamos orientação para entender melhor nossos desejos e direções. Nesse contexto, o psicanalista se destaca como um ser dedicado a nos ajudar a encontrar nossa verdadeira voz. Ele nos escuta, faz perguntas, oferece feedbacks e nos possibilita descobrir o que realmente nos move na vida, aquilo que nos traz paixão e realização. Há pessoas, por exemplo, que escolheram as profissões que seus pais desejaram para elas e nunca tiveram a coragem de seguir sua própria vocação. A questão profissional, portanto, é algo que toma muito tempo da vida e é algo a se pensar com cuidado sobre qual caminho tomar. Não seremos contentes atendendo os desejos alheios, mas sim buscando aquilo que faz vibrar nosso coração. Como Freud, o pai da psicanálise, disse uma vez, "A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz." Essa frase pode ser mal-interpretada, se esquecermos que a felicidade depende também de condições coletivas, como saúde, estudos, destribuição de renda, acesso a recursos. Entretanto, traz algo muito importante: a lembrança que há algo que só nós podemos fazer por nós mesmos, apesar das adversidades e das contingências. Essa afirmação nos lembra da importância de assumir a responsabilidade por nossa própria felicidade e buscar ativamente o que nos traz alegria e realização.

  • O Ego é um Lego: quebra-cabeça em constante mudança

    "Num sonho, estávamos aqui, bem nessa sala. Porém, eu conversava com um outro psicólogo, não exatamente com você, engraçado, né? Eu e ele brincávamos de Lego, sentados no chão, assim como crianças. Aliás, era um consultório para crianças, cheio de brinquedos. O Lego com que brincávamos tinha várias peças coloridas, como se estivéssemos montando e desmontando juntos várias coisas diferentes, eram formas diversas, sem muito sentido". "Lembro da sensação, que era boa, como se fossem vários estalos na minha mente, a cada vez que a gente desmontava as peças e montava de novo, com o prazer de um jogo. Até que em um momento o psicólogo falou: “Está vendo? O ego é um Lego!” – e eu acordei. A sensação é de que eu tinha entendido algo, mas não sei o quê. Fiquei com aquela frase ecoando na minha cabeça o dia todo: “o ego é um Lego, o ego é um Lego…”. Esse sonho foi narrado há alguns anos por um jovem, no consultório. Ele trouxe uma sensação positiva diante das dificuldades que vinha passando ao encerrar um longo e conturbado relacionamento amoroso. Ao fazer associações com o sonho, disse que, assim como um Lego, ele achava que “iria encontrar uma nova forma” para si mesmo, algo que ele não acreditava ser possível até então: “uma forma que eu agora sei que também vai ser provisória, né?”. Isso lhe dava medo, apesar de também lhe trazer um frio na barriga de prazer: uma certa capacidade de se aventurar no desconhecido. Esse relato nos faz pensar o quanto o ego (ou o que chamamos de "eu") é uma parte pequena do psiquismo humano. Cotidianamente, às vezes tendemos a acreditar que a nossa identidade é fixa, imutável. Porém, esse ‘eu’ cria muito mais problemas do que imaginamos. Portanto, o processo de uma análise não busca tornar este eu "mais forte". Pelo contrário, uma análise talvez seja uma das coisas que o torne um pouco mais ‘poroso’, menos engessado, mais flexível ao inconsciente e às manifestações da vida e do desejo de forma geral. Em momentos de crise, as estruturas daquilo que chamamos de "nós mesmos" precisam ser remexidas com cuidado, ética, acolhimento e paciência, antes que cheguem a um colapso total.

  • A força das nossas histórias

    Outro dia me perguntei: será possível trabalhar com pessoas e não apreciar histórias? Ouvir as histórias das pessoas (seus percursos, escolhas, decisões, alegrias, impasses, dúvidas...) é uma maneira de ter notícias de quão vasta é a diversidade entre os indivíduos, e, portanto, jamais devem ser menosprezadas. Talvez não seja viável exercer a profissão de psicoterapeuta sem possuir, entre outras coisas, um apreço marcante pela palavra e um afeto espontâneo pelas pessoas, por mais diferentes que sejam de você.Todos os colegas de profissão que admiro, em primeiro lugar, possuem essas qualidades: uma curiosidade extrema pela variedade da experiência humana com o mínimo possível de preconceito. Como afirma o psicanalista Contardo Calligaris, "a preocupação moral não é estranha ao trabalho psicoterapêutico, mas, para o terapeuta, o bem e o mal de uma vida não se decidem a partir de princípios pré-estabelecidos; eles se decidem na complexidade da própria vida tratada". Ao longo da minha carreira como psicoterapeuta, tive o privilégio de ouvir centenas de histórias. Elas me ensinaram sobre a vastidão da experiência humana, sobre a força e a fragilidade que coexistem em cada ser. As histórias me mostraram que não existe um mapa pré-definido para a felicidade, mas que a própria jornada, com seus desafios e aprendizados, é o que nos permite crescer e evoluir. Sim, há obstáculos, perdas e sofrimentos que não podemos evitar, mas são esses mesmos desafios que nos convidam a encontrar a força interior e a construir a nossa própria felicidade. Acredito que a escuta atenta é uma ferramenta essencial para navegarmos nesse caminho, tanto para nós mesmos quanto para os outros. Que as histórias que ouvimos nos inspirem a sermos pessoas melhores, a construirmos relações mais autênticas e a contribuirmos para um mundo mais interessante e acolhedor.

  • Viver é melhor do que sonhar?

    Os sonhos impactam direretemente o nosso dia a dia, porém a maioria de nós não faz ideia da importância deles. Inclusive valiosas descobertas científicas, como a Teoria da Relatividade (por Albert Einstein), assim como a descoberta da estrutura do benzeno, na química (por August Kekulé), foram influenciadas pelos sonhos destes cientistas. Para Freud, os sonhos são formações do inconsciente e estão articulados ao campo do desejo, trazendo materiais riquíssimos para a análise. Contudo, o único que pode interpretá-los é o próprio sonhador. Não há um “dicionário de sonhos” que possa dizer sobre um significado “universal” dos elementos que surgem. Cada um fará as suas interpretações baseando-se na relação que possui com estes elementos, e o psicanalista o acompanha neste processo. Entretanto, não é apenas a psicanálise que traze contribuições significativas para este vasto campo de estudo. Sidarta Ribeiro, neurocientista e assíduo pesquisador multidisciplinar deste tema, em seu livro “O oráculo da noite — a história e a ciência do sonho” (2019), demonstra a importância do sonho para a solução de questões particulares e coletivas, percorrendo saberes como a psicanálise, a antropologia e a neurociências. Para Sidarta, os sonhos têm a ver com o nosso bem-estar biopsicológico e são “uma forma ancestral de construção, de adaptação, de futuro, de alternativas e possibilidades. É importante para termos criatividade e flexibilidade cognitiva. E não é sobre nós mesmos, é sobre o nosso próprio umbigo, é sobre as relações”. O sono é um dos reguladores da saúde, como à alimentação e os exercícios físicos. "Sem o sono profundo existe um prejuízo cognitivo, o aprendizado e atenção ficam prejudicados. Dormir é importante para consolidar memória, fazer triagem de memória, regulação emocional, diminuir a sua reatividade a estímulos negativos e agressivos, estimular a criatividade. Dormir é muito bom, e sonhar é a cereja do bolo" (Sidarta Ribeiro). Portanto, viver pode até ser melhor que sonhar, como afirmou Belchior. Contudo, sonhar é imprescindível. Em todos os sentidos.

  • A depressão dos homens

    A depressão é um fantasma que assombra a vida de muitos homens, inclusive aqueles que alcançam o sucesso. A história do rapper brasileiro Baco Exu do Blues é um exemplo contundente: no auge de sua carreira, ele se viu enredado nas teias da doença. Sua trajetória, e de tantos outros, desnuda a necessidade urgente de discutir a saúde mental masculina e romper o silêncio que a cerca. Diferentemente das mulheres, os homens podem apresentar a depressão de forma menos óbvia, camuflando-a em raiva, irritabilidade e até mesmo no abuso de substâncias. A pressão social para se encaixar em normas de masculinidade tradicionais, como ser forte e provedor, impede a expressão de suas emoções e dificulta a busca por ajuda. Ao reconhecer sua depressão, Baco descreveu (em entrevista disponível no YouTube) o momento como sendo o "destruir toda a masculinidade que tinha sido imposta” desde a infância. Esse é um desafio comum para muitos homens, que são ensinados a reprimir suas vulnerabilidades. Em meu consultório, é frequente ouvir homens expressarem o arrependimento de não terem buscado ajuda profissional antes. Muitos relatam ter adiado a terapia por medo de julgamentos internos e de outros homens. Mesmo aqueles que decidem iniciar o tratamento reconhecem o desafio que é se colocarem em uma posição de "fragilidade" diante de outro homem. O estigma de um certo modo de masculinidade é um obstáculo colossal para que os homens busquem ajuda para a depressão e outros problemas de saúde mental. A crença limitante de que homens devem ser sempre fortes e "não choram" impede que eles expressem e tratem suas emoções e fragilidades. Muitos homens não reconhecem os sintomas da depressão como um problema de saúde mental, o que dificulta a busca por ajuda profissional. O medo de serem julgados ou discriminados por amigos, familiares ou colegas de trabalho também contribui para o silêncio ensurdecedor em torno da depressão masculina. É fundamental que os homens saibam que não estão sozinhos e que a depressão é algo tratável. Existem diversos recursos disponíveis para auxiliar os homens que sofrem da doença, como linhas de apoio, grupos de terapia e profissionais especializados. Felizmente, cada vez mais homens estão se conscientizando disso, abrindo caminho para uma masculinidade mais autêntica e saudável. Juntos somos mais fortes.

  • Somos guardiões de segredos

    “Somos guardiões de segredos. Todos os dias os pacientes nos honram com seus segredos, frequentemente nunca antes compartilhados”, nos ensina o renomado psicoterapeuta, Irving D. Yalom, autor de "O dia em que Nietzche chorou" e outras obras Esses segredos, carregados em silêncio, muitas vezes trazem consigo culpa, vergonha, anseios por amor e reconhecimento, além de vulnerabilidades, inseguranças e medos. As vaidades e arrogâncias de alguns podem ser apenas máscaras para esconder o doloroso esforço de manter esses segredos por tanto tempo. Por trás da autoconfiança exagerada, podem existir inseguranças e fraquezas que a pessoa tenta esconder. É como se usasse uma máscara para evitar encarar suas próprias vulnerabilidades. Uma luta interna entre o desejo de esconder tudo e a necessidade de ser vista e aceita como realmente é. Toda essa presunção se torna uma tentativa desesperada de esconder a verdadeira pessoa por trás da fachada. O poder das palavras e da confiança, no contexto da psicoterapia, alivia o fardo que muitos carregam em solidão. No consultório, a escuta atenta e acolhedora tece a delicada tapeçaria do tratamento. Palavras que antes eram farpas doloridas transformam-se em bálsamos que acalmam as feridas da alma. A cada história revelada, a cada segredo compartilhado, uma oportunidade de mudança se abre. Ser psicoterapeuta é presenciar a capacidade humana de superação e transformação. Observamos o desenvolvimento de novas perspectivas, a superação de traumas, o aprimoramento de habilidades para lidar com desafios e a construção de relacionamentos mais saudáveis. Mas é importante dar o primeiro passo, porque as mudanaçs não acontecem sozinhas. E você, que segredos guarda em seu coração? Já encontrou um espaço seguro para compartilhá-los? Faça terapia.

  • Não é sobre muletas, mas sim sobre o caminhar

    Quando ela me procurou, iniciamos um acompanhamento. Depois de alguns meses, ela começou a faltar às sessões, apesar de sempre dizer que a terapia a estava ajudando muito. Quando abordei o assunto das faltas, ela disse: "Acho que tenho medo de ficar dependente da terapia, como se ela fosse se tornar uma muleta". Sem pensar muito, respondi: "Logo você, uma enfermeira, incomodada por ter que usar muletas?" Ela riu e falou: "touché". Contudo, com o tempo acabou se afastando de forma definitiva. Porém, quase um ano depois, ela retornou. Dessa vez, fazendo questão de manter o tratamento. Continuamos por mais um ano. No dia 31 de dezembro, recebi uma mensagem gratificante: "Obrigada por todo silêncio e fala de construção nas sessões. Aprendi que terapia não é muleta, é sobre o caminhar. Feliz ano novo!" O medo da "dependência" Apesar da singularidade de cada caso, esse é um receio de muitas pessoas. Ficam com medo de desenvolverem uma dependência do psicólogo e de a terapia se transformar em uma muleta. No entanto, o que frequentemente não percebem é que ao longo de suas vidas já utilizam diversas outras "muletas", que são mais socialmente aceitas. Essas podem incluir o abuso de substâncias como álcool ou tabaco, comportamentos de evitação, ou até mesmo o uso excessivo das redes sociais como forma de fugir dos problemas. Relacionamentos "tóxicos" também servem como muletas. Portanto, reconhecer a necessidade de apoio psicológico não é sinal de fraqueza, mas sim de coragem e autoconhecimento. Vale ressaltar que, nem mesmo as próprias "muletas" são sinais de fraqueza, mas sim estratégias de enfrentamento que desenvolvemos para lidar com as adversidades da vida. No final, todos procuram ser mais autônomos, cada um à sua maneira. Que possamos sempre encarar essa jornada com abertura e aceitação, apesar de todas as dificuldades. E que sejamos sempre cuidadosos. Como nos diz Clarice Lispector: "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro". Lucas C. Protti

  • E a sua intuição nisso tudo?

    A psicanalista Suely Rolnik nos fala sobre um tipo de conhecimento humano que não vem apenas da razão. Ela chama isso de "saber-do-corpo", "saber-do-vivo" e "saber-etológico". Não é algo que vem da nossa mente consciente, mas sim de uma parte mais profunda de nós mesmos. É como aquela sensação de intuição, mesmo que historicamente a intuição não tenha sido muito valorizada. Segundo Rolnik, ativar esse conhecimento mais intuitivo é uma forma de resistir à pressão da sociedade, que muitas vezes nos faz ignorar nossos sentimentos e nos torna insensíveis ao mundo ao nosso redor. Na nossa cultura atual, a intuição geralmente é deixada de lado em favor do pensamento lógico. Valorizamos mais a lógica e os fatos do que aquilo que sentimos intuitivamente. Isso é especialmente perceptível na educação e nas empresas, onde damos mais importância a dados e análises do que à sabedoria que vem da experiência pessoal. Howard Gardner, um psicólogo famoso, também fala sobre a importância de desenvolver uma inteligência intuitiva, que nos ajuda a entender melhor nossos próprios pensamentos e sentimentos. A intuição está sempre presente em nossas vidas, nos guiando em pequenas decisões do dia a dia, como escolher um caminho ou aceitar um convite. Ela se manifesta de formas diferentes para cada pessoa, através de sensações, imagens ou palavras que precisamos aprender a interpretar. Einstein dizia que a intuição é essencial para descobrir as leis do Universo, porque vai além da lógica e da ciência. Não é algo que se possa explicar completamente, mas sim algo que se sente. E você, como percebe esse "saber-do-corpo" em sua vida? Costuma confiar na sua intuição?

  • Lutos e perdas

    Podemos pressupor que quando estamos de luto, estamos de luto por alguém que perdemos. Pensamos nele, vemos sua imagem, ouvimos sua voz, e ele está presente em nós de várias formas muito dolorosas . Embora seja justamente esse caso, talvez também estejamos de luto por algo mais. Lacan fez uma observação muito interessante a esse respeito. Ele enfatizou que não se trata apenas de viver o luto pela pessoa amada, mas trata-se de viver o luto pelo que representávamos para ela. É como se perdêssemos um pedaço de nós mesmos, uma parte intrínseca que se foi junto com aquele ente querido. Esse processo de luto é uma jornada longa e dolorosa. Ao perder alguém amado, não é apenas a ausência física que sentimos, mas também a falta de uma parte de nós mesmos. Aceitar essa perda é mais do que um mero reconhecimento verbal; é uma aceitação que nos demanda uma reconfiguração interna. Entretanto, isso não quer dizer que elaborar o luto “esquecer” o morto ou livrar-se dele. Na medida em que aceitamos a perda, paradoxalmente, podemos construir um outro relacionamento com aqueles que já se foram, que se torna inclusive um vetor de vitalidade para muitas pessoas. O luto é uma maneira de permitir aos mortos que vivam conosco, só que de outras formas. Nesse sentido, é importante reconhecer a necessidade de apoio psicológico durante esse período desafiador. Falar com um psicólogo pode proporcionar um espaço seguro para expressar e explorar as emoções do luto. Elaborar e sentir essas emoções com a orientação de um profissional qualificado pode ajudar na compreensão do processo de luto e de construção desse novo relacionamento com aqueles que já se foram. É essencial contar com alguém que nos acompanhe, que seja capaz de ouvir nosso sofrimento com empatia e respeito, acolhendo nossas dores, alegrias e vivências com aqueles que já se foram. Nesse sentido, reconhecer a importância do apoio psicológico durante esse período desafiador é fundamental. Ao conversar com um psicólogo, encontramos um espaço seguro para expressar e explorar as emoções do luto. Elaborar e sentir essas emoções com a orientação de um profissional qualificado pode auxiliar na compreensão do processo de luto e na construção de um novo relacionamento com aqueles que já partiram . Lucas C. Protti

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