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  • Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história (Hannah Arendt)

    Sabemos que existem dores que que não desparecem inteiramente. Além disso, a mera narrativa da dor não extingue o sofrimento. Entretanto, a narrativa nos possibilita encarar a dor sob diferentes ângulos. Ao construir uma narrativa, ela não mais permanece uma sensação indistinta e inexprimível (apesar de existir algo de indizível em toda dor) mas sim algo com que podemos manejar de maneira um pouco mais “concreta”. Muitas vezes é sobre suportar o indizível existente na dor e nos reposicionarmos em relação a ela. Falar sobre eventos traumáticos em uma psicoterapia, como o caso de um abs0 s3xu4l (ou a perda de um ente querido, entre outros) muitas vezes requer um percurso que envolve numerosas sessões, avanços e recuos. Só depois de um tempo então que pode se iniciar um ciclo de "cicatrização" dessas dores. É fato que quando lidamos com a dor, criamos escudos para nos proteger dela, mesmo que a dor continue ali, escondida dentro da gente e aparecendo de jeitos diferentes. Por isso, durante um processo psicoterapêutico, pode acontecer de acabarmos "revivendo" parte dessas dores que a gente achava que não sentia mais. Isso acaba nos ajudando a libertar um pouco da dor acumulada. Afinal, muitas vezes não temos ideia de como deixar para trás a dor que experimentamos, já que essa dor também faz parte de quem somos. Explorar esses pontos dolorosos é um procedimento sensível e cuidadoso, porém essencial, quase como realizar pequenas "cirurgias" na alma. Não é com qualquer pessoa que nos sentiremos à vontade para isso. Escolha com cuidado. Lucas C. Protti CRP 16/4446 Hannah Arendt (1906 - 1975) foi uma importante filósofa política alemã de origem judaica que testemunhou os horrores do nazismo.

  • A relação mãe e filha

    Discussões, queixas, críticas e reprovações podem acabar por eternizar um clima hostil na convivência entre muitas mães e filhas. Não foi à toa que Freud utilizou a palavra 'catástrofe" (e Lacan a palavra 'devastação') para falar sobre as intensidades afetivas que permeiam essa relação, que, quando bem cuidada, é cheia de potencialidades. Na puberdade, é comum intensificarem-se as discussões, queixas e críticas entre ambas, pois é neste período que a adolescente começará a distanciar-se da autoridade parental e a exercer sua sexualidade. A filha carrega o medo de perder o amor da mãe, enquanto a mãe sofre com a ameaça da destituição de seu lugar e da não realização de seus projetos narcísicos e ideais projetados na filha. Além disso, ao constatar o desejo sexual de sua filha na adolescência, a mãe é obrigada a confrontar suas próprias questões que se referem à sua própria sexualidade. Os impasses desta relação acabam por trazer dificuldades para que a filha possa construir seu próprio caminho, viver sua vida e fazer suas próprias escolhas (inclusive amorosas) no processo infinito de 'tornar-se mulher', ao seu modo, sempre singular. Neste emaranhado de sentimentos e expectativas, de fato é que ambas têm uma parcela de responsabilidade neste conflito. Resta que cada uma possa se perguntar qual é a sua.. Algo que, muitas vezes, só vai acontecer no divã do psicanalista. Lucas C. Protti

  • Se você foi diagnosticado com algum transtorno mental

    Quando os psiquiatras/neurologistas diagnosticam corretamente um transtorno, assim como prescrevem medicamentos para tratá-lo, muitas vezes eles melhoraram a qualidade de vida de muitas pessoas. Entretanto, para alguns, o diagnóstico recebido facilmente se torna uma parte valiosa da sua identidade: elas passam a “ser” o transtorno. Demora pra descobrirem que podem ser algo além de uma “doença”. Felizmente, após procurarem uma psicoterapia, alguns chegam a ter “insights como o de uma jovem que atendi: "Eu percebi que eu preciso parar de me fazer ser vista como sendo apenas um transtorno. Além disso, eu acabo falando muito disso com as pessoas que eu não tenho nem intimidade!". No caso citado, essa constatação inclusive possibilitou que a pessoa conseguisse buscar novas amizades, descobrindo também outras ricas facetas de si mesma. No processo psicoterapêutico ela percebeu que, ao sempre trazer os assuntos relacionados ao transtorno nas conversas com as pessoas que estava conhecendo, acabava por afastá-las. Existe sempre um ser humano por trás de cada um de cada um desses diagnósticos – um ser que sente, pensa e questiona! Um ser que, diferente dos remédios, não possui receita e nem bula. Um exemplo corriqueiro disso é a chamada “depressão”: Como é a depressão em você? Você a sente mais em quais momentos? Quando começou? O que você acha que levou esse estado? O que é para você estar deprimido? Que horas ela se intensifica? Entre outras diversas outras questões que surgem durante um tratamento, demonstrando que “a depressão” não é uma coisa “estática” e idêntica para cada sujeito. Isso é válido não apenas para diagnósticos relacionados a saúde mental, mas sim para todos os outros “nomes” e “classificações” da vida cotidiana que, ao invés de potencializarem a vida, podem acabar restringindo-a. Em última análise, a jornada rumo ao bem-estar envolve mais do que simplesmente identificar e tratar diagnósticos. É necessário reconhecer a singularidade de cada ser humano, reconhecendo que por trás de cada rótulo há uma narrativa única e intrincada. A psicoterapia emerge como uma espécie de bússola nessa viagem. Ao invés de serem definidos por suas condições, os sujeitos podem redescobrir-se de forma mais ampla, encontrando conexão, propósito e autenticidade. Lembremos sempre do poder transformador do autoconhecimento e do apoio terapêutico, pois é através desse processo que verdadeiramente abrimos portas para uma vida significativa. Lucas C. Protti

  • Se apaixonar é um dos riscos de estar vivo

    Apaixonar-se é, para muitos, uma experiência temerosa: “como isso aconteceu justo comigo?”, alguns se perguntam no divã do psicanalista, desconcertados com esse novo estado das coisas.. Acreditam que, só por quererem conscientemente que isso não lhes aconteça, conseguirão controlar este acontecimento que é da ordem do imprevisível. A paixão pode realmente esburacar as imagens ideais que os seres humanos criam deles mesmos, trazendo à luz sentimentos desconcertantes como: ciúmes, medo de perder o outro, intensa alegria, vergonha, entre outros, que são singulares a cada caso. Muitos evitam a interação com seus semelhantes, talvez para poder conservar a ilusão de que os problemas decorrem do outro, já que é na presença deste - e não no isolamento - que surge a sensação de perturbação. Alguns até afirmam com todas as letras que estão cansados de serem solteiros, que querem se apaixonar, encontrar um grande amor. Porém, quando essa possibilidade se aproxima da sua concretização, não suportam. Passam a enumerar os defeitos do possível pretendente, encontrando justificativas para continuarem a perseguir o impossível. Há os que não aguentam a intensidade do desejo alheio, e acabam preferindo aquelas pessoas que lhe tratam até com algum desinteresse, pois pelo menos assim alguma distância é mantida… “Como eu posso ser tão interessante aos olhos do outro? Só pode ter alguma coisa errada com essa pessoa para ela ver isso tudo que ela diz ver em mim…”. Pois é. Me diz, como?

  • O sofrimento e a jornada da vida

    A vida é uma jornada repleta de momentos diversos e, por vezes, nos vemos diante de situações que nos tiram literalmente o chão. Pode ser causado por uma grande perda, uma mudança abrupta, uma decepção profunda ou uma crise pessoal. Nessas situações, nos sentimos perdidos, confusos e às vezes até paralisados pela incerteza do que fazer em seguida. É um momento de vulnerabilidade extrema, onde a sensação de estabilidade e segurança desaparece, deixando-nos à deriva emocionalmente O sofrimento, quando não é adequadamente reconhecido, expresso e tratado, pode se manifestar de maneiras variadas, impactando não só nosso corpo, mas também nossa mente, nossa alegria e nossa capacidade de sentir prazer. Não há fórmulas prontas para a felicidade, pois cada pessoa é única e, consequentemente, enfrenta desafios singulares. Em tempos de adversidade e transformação, ao invés de buscar respostas imediatas para aliviar nosso desconforto, talvez seja mais valioso formular questões que ampliem nossa visão de mundo e, consequentemente, as possibilidades que a vida nos oferece. Assim, buscar ajuda profissional através de uma psicoterapia é, entre outras coisas, um ato de coragem. É ter a audácia de se deparar com temas importantes de uma maneira diferente do habitual, de se permitir explorar novos horizontes emocionais e mentais. É apostar que os desafios inevitáveis do percurso podem se transformar em preciosas lições que fortalecem nosso ser e nos conduzem a novos caminhos de crescimento e realização. Nesse sentido, encarar o processo terapêutico não é sinal de fraqueza, mas sim de força interior e determinação em buscar uma vida mais plena e significativa.

  • "Você é especialista em que? Ansiedade, depressão, vícios, TDAH...?

    Outro dia, uma colega que trabalha com marketing digital me fez essa pergunta sobre quais "transtornos" eu era especialista. Fiquei um pouco surpreso com a pergunta e respondi: "Mas esses campos não estão interligadas?". Lembrei-me de uma pessoa que me procurou, solicitando atendimento. "Eu fiz dois anos de terapia, mas o psicólogo focou principalmente na minha fobia social. Não abordamos muito a minha ansiedade". Como assim? - me questionei. O perigo dos especialismos é reduzir a complexidade da experiência humana a categorias estanques e isoladas. A natureza multidimensional da psique humana não se encaixa perfeitamente em compartimentos estreitos e delimitados, como os transtornos específicos definidos pelo manual diagnóstico DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). Ao focarmos demais em um "transtorno específico", corremos o risco de negligenciar outros aspectos essenciais da vida das pessoas que atendemos.Por exemplo, um psicólogo "especializado em fobia social" pode estar menos atento aos problemas subjacentes de relacionamento, traumas passados ou questões existenciais que contribuem para a ansiedade do paciente, como no caso citado no início da conversa. Embora as especializações que tenho enriqueçam o meu trabalho conhecimento em áreas específicas da psicologia, é importante ressaltar que não me considero um especialista em algum "transtorno" ou nos temas abordados durante os meus dois cursos de pós-graduação ou no meu mestrado. Enquanto psicólogo, preciso continuar estudando a vida toda para ir me tornando um "especialista" em pessoas. Uma formação que não acaba nunca: análise pessoal, supervisão, estudos e sensibilidade. Essa postura não implica em desconsiderar os sintomas das pessoas, mas abrir-se para ouvir e intervir em algo que está para além deles...

  • Uma prisão chamada perfeição

    Uma das maiores prisões do ser humano talvez seja sua necessidade de tentar ser perfeito. Como afirmou Freud, "poderíamos ser melhores, senão quiséssemos ser tão bons". Essa busca é fruto do sistema em que vivemos, e também pode surgir como uma forma de compensar sentimentos profundos de inadequação, frequentemente enraizados desde a infância. Portanto, simplesmente "desprogramar essas "crenças limitantes", como prometem os gurus, coachs e "terapeutas quânticos" do Instagram, não é possível. É por isso que uma psicanálise pode levar alguns anos. Algumas questões, como sentimentos de inadequação e feridas emocionais, só podem ser acessadas e elaboradas após um bom tempo de convivência e confiança. Um psicanalista não pode garantir mudanças mágicas, mas sustenta a aposta de não perpetuar um estado de repetição sintomática constante. É uma busca por criar pequenos desvios nos territórios existenciais já adoecidos. Talvez a relação com o psicanalista seja o primeiro lugar onde alguns se permitem não “serem tão perfeitos”, percebendo que é possível tirar algumas máscaras e criar laços mais significativos. Laços esses que também nunca serão perfeitos, mas provavelmente serão mais autênticos. Laços mais próximos do que chamamos de intimidade e autenticidade.

  • A doença como sinal

    Quando a doença surge, nosso corpo parece nos trair, desviando das funções "naturais". Mas e se houver um significado mais profundo por trás dela? Imagine a doença como um sinal de trânsito, direcionando nossa atenção para áreas de nossa vida que talvez tenham sido negligenciadas. Ela pode nos “obrigar” a reavaliar nossas prioridades e a relação que temos com nós mesmos. Intuitivamente, às vezes até conseguimos ter pistas sobre o que o processo de doença quer dizer a respeito dos conflitos da nossa alma, quais emoções nossas precisam de maior cuidado. Entretanto, é mais fácil e consistente quando temos ajuda de um psicólogo onde podemos endereçar nossas questões e estas pistas se clarearem. O papel do psicólogo não é o de fornecer a mensagem que a doença traz, como se ele tivesse um “dicionário de doenças”, mas sim o de acompanhar a pessoa que procura em sua jornada de descoberta dessas mensagens, caso isso seja uma questão para ela. Algumas doenças têm o potencial de mudar drasticamente para melhor com o andamento dos atendimentos psicológicos. Surpreendentemente, existem pessoas que viram suas enfermidades desaparecerem ou melhorarem muito ao longo deste tratamento. No entanto, existem muitos cenários onde a doença permanece, mas ela adquire um novo significado para o indivíduo. A angústia que surge com o adoecer ganha um contorno simbólico, que permite enfrentar o caos que o processo de adoecimento traz. A doença não define quem somos; ela é apenas um aspecto temporário em nossa trajetória. Não temos como evitar seu surgimento, mas podemos enfrentá-la de maneira mais atenta e cuidadosa. Afinal, ela sempre estará por perto, sendo a finitude a nossa única certeza. Lucas Protti CRP 16/4446

  • Alguns problemas não podem ser encarados de frente

    Ele se queixava do trabalho, que o sufocava como uma camisa de força. Não via mais nenhum sentido naquilo. Sua busca por um novo emprego era frustrante. Mas, em determinado momento, quase entrando em uma certa "depressão", ele decidiu procurar ajuda de um psicanalista que o ajudou a perceber uma lógica uma lógica estranha em sua maneira de ser: “Se eu não estiver feliz profissionalmente, todas as outras coisas serão ruins”. É que toda vez que ele estava se divertindo, sentia um peso no peito, como se estivesse fazendo algo errado. Afinal, em sua família, o trabalho sempre foi a coisa mais importante. Como então ele poderia sentir prazer se o trabalho não estava indo bem? Enquanto ficava com essas descobertas reverberando dentro de si, com a ajuda do psicanalista, começou a se permitir coisas que nunca havia feito. Pequenas viagens. Shows das bandas que gostava. Começou a valorizar o tempo que passava com as pessoas que gostava. Antes, era como se ele tivesse um cabresto que o puxava para trás, impedindo-o de aproveitar a vida. O trabalho foi deixando de ser a sua única fonte de sentido e satisfação. O mal-estar estava lá, mas não mais o tomava. Agora, deitava no divã e falava com entusiasmo dos pequenos prazeres que vinha tendo, da vida que parecia mais colorida. Até que, depois de muitas tentativas infrutíferas, apareceu uma nova oportunidade de trabalho que ele achou mais gratificante. Claro que depois vieram novos problemas que, em suas palavras, “pelo menos eram novos”, “mais interessantes”. Às vezes, os problemas não podem ser encarados ou resolvidos de frente. É preciso acessá-los pelas beiradas, pelas laterais. É como tentar remover uma pedra de um rio com as próprias mãos. Se você tentar mover a pedra de frente, você só vai se machucar. Contudo, se você cavar ao redor da pedra, você pode encontrar um caminho para contorná-la. E algumas delas passam até rolar sozinhas, seguindo o próprio fluxo da correnteza. Lucas C. Protti Psicólogo Psicanalista CRP 16/4446

  • Amizade na vida adulta: por que parece tão desafiador?

    "Na verdade, eu falo que não tenho tempo, mas eu que não dou prioridade a isso, né?”, me disse um rapaz esses dias, no consultório de psicologia. No entanto, a dificuldade em cultivar amizades durante a vida adulta é uma queixa crescente e compartilhada por muitos. A falta de tempo é um dos motivos mais comuns e justificáveis, mas também, na clínica, acabamos escutamos os ruídos de uma desconfiança muito grande nos relacionamentos de forma geral. Então, quando acontecem eventos drásticos como, por exemplo, separações amorosas, essas pessoas se sentem ainda mais solitárias, sem rede de apoio. Apesar de o pensar livremente que ocorre em uma psicanálise exigir um nível de confiança extraordinária, pautado em um vínculo, o psicólogo jamais substitui a necessidade de ter amigos. Como nos diz Irving Yalom, a psicoterapia “não é um substituto para a vida, mas um ensaio geral para a vida. Embora ela exija um relacionamento íntimo, o relacionamento não é um fim — é um meio para um fim”. Uma ideia comum é que a amizade simplesmente acontece naturalmente, por questão de sorte. Entretanto, ela exige um esforço de aproximação: os amigos não surgem de graça, conquistam-se. Têm mais a ver com a qualidade do que com a quantidade. Em um mundo muitas vezes hostil e individualista, parece que vale a pena. “Ei, faz um tempão que não conversamos. Eu estava pensando em você. Como você está?", é uma mensagem simples e que muitas vezes gera efeitos surpreendentes. Mas e você, quais são os pontos que encontra maior dificuldade para, na vida adulta, manter amizades? Lucas Conforti Protti Psicólogo CRP 16/4446

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